
Há dias em que o treino encaixa perfeitamente na rotina. Acordamos com energia, cumprimos o plano e terminamos com aquela sensação de missão cumprida.
E depois existem os outros dias.
Os dias em que estamos cansados, em que o trabalho se prolonga, em que o corpo pede descanso ou simplesmente não apetece calçar os ténis.
É precisamente nesses dias que a consistência é construída.
Para Daniel Viegas, treinador, personal trainer e membro ASICS FrontRunner Portugal, a consistência não depende de estar sempre motivado. Depende de criar pequenos hábitos que tornam mais fácil continuar, mesmo quando a motivação não aparece.
Porque evoluir no desporto não acontece apenas nos grandes treinos. Acontece naquilo que conseguimos repetir durante semanas, meses e anos.


Quantas vezes pensamos “amanhã treino” e, quando chega amanhã, já não encontramos tempo?
Colocar o treino na agenda muda a forma como o encaramos. Em vez de ser algo que fazemos quando sobra tempo, passa a fazer parte da nossa rotina.
Planeia a semana de acordo com a tua realidade: define os dias, horários e sessões que queres cumprir. Se sabes que determinado dia será mais complicado, antecipa ou adapta o treino.
E lembra-te: um bom plano não é aquele que parece perfeito no papel. É aquele que consegues cumprir na vida real.
Consistência começa quando deixamos de depender da vontade do momento e começamos a criar espaço para aquilo que é importante para nós.
Existe uma tendência para associar evolução a intensidade. Quanto mais rápido, melhor. Quanto mais difícil, mais eficaz.
Mas correr bem também significa saber correr devagar.
A maioria das tuas corridas deve acontecer a um ritmo confortável, permitindo acumular volume, desenvolver resistência e recuperar para os treinos mais exigentes.
Os treinos fáceis podem parecer pouco impressionantes, mas são uma parte essencial da construção de uma boa base.
Nem todos os treinos precisam de provar aquilo de que és capaz. Alguns existem para preparar o teu corpo para aquilo que ainda vais conseguir fazer.
Correr é o treino que mais gostamos de fazer, mas não deve ser o único.
O treino de força e reforço ajuda a preparar o corpo para suportar a carga da corrida, melhorar a resistência muscular e tornar o movimento mais eficiente. Também pode desempenhar um papel importante na prevenção de lesões.
Não precisas de transformar a tua rotina num programa de musculação complexo. O importante é incluir trabalho de força de forma regular e consistente.
Porque um corpo mais forte não serve apenas para correr mais rápido.
Serve para continuar a correr.


Seguir um plano é importante. Saber quando o adaptar também.
Nem todos os dias o corpo responde da mesma forma. Sono, stress, trabalho, alimentação, recuperação e carga acumulada podem influenciar a forma como nos sentimos durante um treino.
Por isso, aprender a distinguir entre aquele “não me apetece” que faz parte da rotina e sinais reais de fadiga ou desconforto é fundamental.
Por vezes, o melhor treino será exatamente o que estava planeado. Outras vezes, será necessário reduzir o ritmo, diminuir a distância ou descansar.
Adaptar não é desistir. É saber cuidar do processo para conseguir continuar.
Este talvez seja o hábito mais simples — e o mais difícil de manter.
Porque todos nós vamos falhar um treino. Vamos ter uma semana menos boa. Vamos perder o ritmo. Vamos encontrar obstáculos que não estavam no plano.
A diferença está naquilo que fazemos depois.
Não transformes um treino perdido numa semana perdida. Não transformes uma semana difícil numa razão para parar.
Volta.
Volta ao treino seguinte. Volta quando tiveres energia. Volta depois de recuperares. Volta mesmo que tenhas de começar um pouco mais devagar.
A consistência não é uma linha perfeita. É a capacidade de continuar a avançar, mesmo quando o caminho tem algumas interrupções.
É fácil treinar quando estamos motivados. O verdadeiro desafio é construir uma rotina que funcione também quando a motivação desaparece.
Planear os treinos. Respeitar os dias fáceis. Fortalecer o corpo. Ouvir os seus sinais. E, acima de tudo, voltar.
São hábitos simples, mas quando repetidos ao longo do tempo tornam-se muito mais do que uma rotina de treino. Tornam-se uma forma de estar no desporto.
Como resume Daniel Viegas, “a consistência não nasce da motivação. Nasce dos pequenos hábitos que repetimos, mesmo nos dias em que não apetece.”
E talvez seja esse o verdadeiro segredo para continuar a evoluir:
não procurar fazer tudo perfeito. Procurar continuar.